EDUCAÇÃO DO CAMPO


Historicamente a oferta de educação para a população da zona rural não reconhecia o campo como espaço de produção cultural e de conhecimento. A atuação dos movimentos sociais populares contribuiu para o rompimento do arquétipo da escola rural urbanizada e, desse processo, nasce a Educação do Campo, que foi integrada à esfera de proteção e fomento estatal mediante a criação da Política Nacional de Educação do Campo, a qual tem orientado a atuação da Coordenação da Educação do Campo da Secretaria da Educação do Estado da Bahia.


Ocorre que, desde março de 2020, o Estado da Bahia vê-se diante do desafio de concretizar a Educação do Campo no cenário de emergência em saúde pública de caráter internacional e sistêmico (COVID-19). Nesse contexto, as análises de conjuntura para os próximos momentos trazem para a ordem do dia a necessidade de reconfiguração das ações pedagógicas, tendo como objetivo a efetivação de um modelo educacional onde o sujeito do campo seja protagonista e tenha valorizado o seu modo de vida, a partir do incentivo de práticas contextualizadas, sustentáveis e solidárias.
Assim, o retorno às aulas será um momento em que, para garantir ao estudante do campo o acesso necessário aos meios e formas de construção/apreensão do conhecimento, se fará necessária a elaboração de uma proposta educacional que suplante os desafios que permeiam o campo brasileiro e que fortaleça o projeto de educação e de campo defendido por essa população.


Desse modo, o planejamento da Jornada precisa contemplar novas estratégias para que os princípios de uma educação emancipatória e que considere os anseios dos diversos povos se materializem em um conjunto de práticas que possam ser integradas à rotina do estudante no tempo extraclasse, evitando a difusão do conhecimento apartado da realidade.


Durante o ano letivo, o processo de ensino/aprendizagem deverá ser garantido para além dos muros da escola, onde conhecimento científico e saber popular podem e devem ser trabalhados em intersecção, envolvendo os diversos sujeitos do campo: comunidade escolar, famílias e lideranças. Também se faz necessário trabalhar com eixos estruturantes, a exemplo da questão fundiária, cidadania, agroecologia, soberania alimentar, cultura, diversidade e direitos humanos.

A depender do território de identidade onde esteja localizada a unidade escolar, a organização dos tempos e espaços pedagógicos irá variar. A elaboração de um Plano Gestor Territorial contribuirá para que as peculiaridades do território sejam consideradas e para subsidiar a adoção dos princípios da Educação do Campo e da Educação Contextualizada. O documento deve ser elaborado levando em consideração as condições de acesso dos (as) estudantes e conter, também, as orientações e cuidados necessários ao enfrentamento da pandemia, a fim de que se evitem aglomerações e novos contágios. O objetivo é contribuir para o enfrentamento dos desafios impostos pelo momento e ofertar condições para que o(a) estudante do campo tenha acesso aos conhecimentos elaborados e acumulados pela humanidade.

No retorno às aulas, para além das orientações gerais disponibilizadas pela SEC e pelos órgãos de saúde, a unidade escolar deverá observar questões ligadas à logística, infraestrutura e tecnologia, merecendo atenção especial os seguintes aspectos: a) qualificação dos diversos espaços da escola, a exemplo das áreas de hortas e de produção, de prática de leitura e contação de histórias e de realização de práticas culturais, a exemplo de rodas de conversa, produção de artesanato, dentre outras; b) disponibilização de instrumentos, insumos e materiais específicos para as atividades práticas inerentes à Educação do Campo.

Quanto ao Pedagógico, algumas ações devem ser observadas a partir da elaboração de estratégias de diálogo com a comunidade escolar e extra-escolar:


a) Realização de encontro com a comunidade escolar, incluindo líderes estudantis e/ou integrantes dos núcleos de base, e representações comunitárias para planejamento da flexibilização/adequação do calendário escolar às fases do ciclo agrícola e às condições climáticas, com base na territorialidade e nas diretrizes estabelecidas pela rede;
b) Elaboração de um Plano Gestor Territorial para orientar a realização das atividades pedagógicas fundamentadas na territorialidade e que atendam às peculiaridades econômicas, sociais e culturais do território;
c) Reordenamento no atendimento aos estudantes (quantidade de estudantes, horário, programação de aulas, utilização dos espaços da escola de forma intercalada);
d) Atualização do PPP – Projeto Político Pedagógico das escolas do Campo com o objetivo de garantir a identidade da escola, construída a partir dos princípios da Educação do Campo, bem como redimensionar as ações em virtude do período pandêmico e dos novos desafios impostos;
e) Contribuir para a inclusão digital e acesso às tecnologias digitais à população do campo e ao seu projeto de educação;
f) Valorizar as tecnologias sociais que são inerentes à população do campo e ao seu projeto de educação;
g) Definir, a partir da territorialidade e da participação coletiva dos sujeitos, uma proposta que garanta a ocorrência de processos alternados de ensino/aprendizagem na escola, na comunidade e no trabalho. Na escola, as ações pedagógicas devem ocorrer intercalando os espaços de sala de aula e os diversos espaços da escola: área de hortas e de produção, áreas de prática de leitura e contação de histórias e áreas de realização de práticas culturais, a exemplo de rodas de conversa, produção de artesanato, dentre outras;
h) Assegurar que o novo modelo de organização e gestão da escola do campo contenha o direito de participação das comunidades rurais e dos movimentos sociais do campo;
i) Aquisição de recursos pedagógicos adequados à realização de atividades práticas inerentes à Educação do Campo: kit para horta, ferramentas e insumos necessários à prática agroecológica, jogos educativos e livros paradidáticos.

No âmbito social, verifica-se que os novos desafios decorrentes da pandemia de Covid-19 exigem uma reconfiguração das ações e dos planejamentos que haviam sido realizados. A Jornada Pedagógica 2020.2 ocorrerá nesse cenário e, também, exigirá reflexões sobre: questões emocionais relacionadas pela pandemia, avaliação diagnóstica da construção do conhecimento pelo educando do campo, planejamento pedagógico e, sobretudo, respeito à vida, à saúde e à integridade física.
Desejamos bom retorno a todos e todas e que nosso novo caminho seja repleto de superação, resistência, avanços, lutas e vitórias. Viva a Educação do Campo!

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